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Novos Modelos de Vida | Autonomia e Diversidade

O termo self-reliance, em inglês, expressa a idéia de "contar com você mesmo". É a capacidade de suprirmos nossas necessidades básicas com nossos próprios recursos, diminuindo ou eliminando a interferência de redes e fornecedores externos. A qualidade de autonomia se refere a diversos assuntos, como ao suprimento do alimento necessário à vida (autonomia alimentar), ao suprimento da energia elétrica necessária para o funcionamento de mecanismos e tecnologias (autonomia energética), assim como o suprimento de outras demandas, como vestuário e medicamentos. 


Ao nos tornarmos mais autônomos (self-reliant), nos tornamos responsáveis pelo manejo do sistema em questão, adquirindo um maior entendimento sobre ele, otimizando-o e adequando-o ao nosso contexto local.  Isso significa que nos tornamos menos vulneráveis às flutuações e variáveis externas sobre as quais não temos controle, garantindo a manutenção dos elementos que são essenciais à nossa vida. Como uma sociedade pode se tornar mais autônoma? Ainda que essa pergunta soe muito relevante hoje, a autonomia é essencial na história de subsistência e prosperidade de culturas tradicionais, que existiram e existem fora do âmbito da globalização. O conhecimento profundo do território que habitam - suas variações, seus ciclos, suas potencialidades - possibilitou a adaptação de diversos povos tradicionais a ambientes naturais variados, desde os mais extremos como os desertos, aos mais abundantes, como os trópicos onde vivemos. 


A autonomia começa com a observação e a análise do ambiente à nossa volta - o reconhecimento de seus recursos e quais habilidades e ferramentas são necessárias para prosperarmos em um contexto específico. Tal característica é inerente aos ecossistemas naturais, que sustentam milhares de seres vivos em relações tróficas saudáveis, dinâmicas e em constante evolução. O que podemos aprender com eles?


Na natureza um ecossistema é "self-reliant", ou autônomo, quando:


1. Os seres vivos que o habitam vivem de acordo com sua natureza e desempenham plenamente suas funções únicas

Cada um possui qualidades específicas que beneficiam o conjunto. No mundo natural, os fungos se encarregam da distribuição de nutrientes no solo, os decompositores da ciclagem de nutrientes, os polinizadores favorecem a reprodução vegetal e a produção de alimento. A manutenção das funções básicas de um ecossistema permite seu funcionamento perfeito.

Qual é a sua contribuição ao seu contexto particular ?

2. Sustenta colaboração e biodiversidade

A autonomia está ligada à colaboração e à biodiversidade. Um ambiente colaborativo constrói resiliência, como uma rede composta por muitos nós. Quanto maior o número de nós (pontos de colaboração), melhor é a distribuição da pressão aplicada sobre a rede.

A biodiversidade é um fator que favorece a perpetuação da vida, à medida que garante que organismos tenham resistências diferentes para suportar variações em seu habitat durante acontecimentos extremos. Alguns suportam melhor estiagens, outros temperaturas elevadas, alguns são mais velozes, e assim a vida prospera dia após dia.



COMO A ARQUITETURA FAVORECE A CONSTRUÇÃO DE AUTONOMIA ?

A arquitetura que produzimos determina a qualidade de vida das pessoas que vivenciam os espaços arquitetados e também a qualidade dos espaços naturais. As grandes metrópoles são abastecidas diariamente com insumos originados na natureza (matéria prima), que são então processados, distribuídos e consumidos nas cidades. O mundo visível da arquitetura contemporânea é a área urbana. O mundo invisível da arquitetura contemporânea é a área rural, desenhada nos bastidores, através das nossas escolhas pessoais e coletivas - um reflexo da forma pouco criativa como interagimos com o planeta: dominação, extração e descarte.

Diante dos desafios deste século, nossa sociedade moderna pode responder criativamente através da aproximação destes dois universos - rural e urbano. Como, afinal, podemos construir modos de vida verdadeiramente benéficos ao planeta? As soluções para as atuais crises ambientais, sociais e econômicas se encontram exatamente na reintegração da natureza aos ambientes exclusivamente “humanos”, e na promoção de práticas que garantam o bem estar dos outros seres vivos, e não somente o bem estar da nossa espécie. Somar, ao invés de subtrair.


O pesquisador Steven Berlin Johnson reflete, em seu TED Talk “Where Good Ideas Come From”, sobre quais seriam os padrões e qualidades inerentes a ambientes criativos. Johnson aponta que é a união de ideias, pessoas e elementos diversificados. Seja em um café ou no meio de uma floresta, novas ideias e novos mecanismos surgem em ambientes dinâmicos, onde há um equilíbrio entre controle, espontaneidade e trocas colaborativas. O conceito de diversidade biocultural aponta a interrelação entre a riqueza cultural e riqueza biológica de uma região. O termo sugere que culturas humanas criativas, com valores e tecnologias distintas, resultam de habitats naturais ricos, e que estes coevoluem ao longo do tempo. Muitas sociedades tradicionais oferecem exemplos de modos de vida autônomos, capazes de suprir suas necessidades enquanto também preservam os recursos naturais.

A diversidade biocultural é um ponto de partida importante para a construção de novas soluções integradas à natureza e uma nova abordagem para a arquitetura. Construir autonomia através da integração de áreas verdes dinâmicas ao tecido urbano, manejando-as para o suprimento das necessidades locais. Áreas de produção de alimento no interior e nas margens das cidades, intercaladas por corredores verdes destinados à vida selvagem. Simultaneamente, na área rural, incentivar o planejamento voltado à biodiversidade, a estruturação de propriedades que promovam sistemas agrícolas regenerativos, áreas de preservação bem estabelecidas, sistemas construtivos ecológicos e a manutenção de práticas tradicionais e novas de tecnologias que impulsionem um desenvolvimento sustentável. A arquitetura de sistemas integrados, assumindo a responsabilidade pela edificação e pelo contexto ecológico na qual esta se encontra. As vantagens de uma abordagem arquitetônica integrada são muitas - uma maior visibilidade e manejo dos sistemas importantes para nossa sobrevivência e bem-estar; a economia dos recursos que seriam investidos em transporte, e o benefício gerado pela conexão com a natureza.

Neste processo de redesenho para a autonomia, da grande escala (o lote individual) à escala menor (bairros e cidades), nos deparamos com muitos desafios: Como integrar a produção de alimento a áreas já consolidadas? Como suprir, com recursos renováveis, a demanda energética, gerando energia próxima aos pontos de consumo? Como criar uma arquitetura a partir de materiais locais? Como processar localmente os efluentes gerados pelas atividades humanas? Como incentivamos uma nova bioeconomia, baseada na produção local de bens para mercados consumidores locais? Como nos organizamos como sociedade para uma melhor dinâmica social? Como adequamos nossa cultura a um ritmo mais biológico e natural? 


As respostas dependem das inspirações que buscarmos e do nível de criatividade e colaboração que estamos dispostos a abraçar. Vivemos um momento que pede pelo novo, por novos modos de vida que reintegrem o ser humano ao ecossistema natural.




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Calculadora de plantio:  5.060 mudas de árvores nativas plantadas até o momento no Brasil em nossos projetos

* início da contagem: 01/01/2016

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